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 As melodias imbatíveis de Wilson Moreira
Monica Ramalho
aNa abertura de uma matéria sobre o cantor e compositor portelense Wilson Moreira, a jornalista Lena Frias sacramentou em poucas palavras o que é consenso nos palcos da vida: "Wilson Moreira é mel, mamão com açúcar. Um dos melhores melodistas que a música popular brasileira já produziu". Criador de jóias como "Goiabada Cascão", "Coisa da Antiga" (ambas com Nei Lopes) e "Judia de mim", parceria com Zeca Pagodinho, o Alicate - apelido inventado por Xangô da Mangueira em referência ao seu potente aperto de mão - também caiu nas graças dos mais jovens. Para o cantor Pedro Paulo Malta, "dos compositores de samba em atividade, Wilson é imbatível. Está no mesmo time, por exemplo, de Elton Medeiros, Dona Ivone Lara e Paulinho da Viola".

Em fase de pré-produção e ainda sem gravadora certa, o álbum Wilson Moreira em versos e quadras reunirá sambas de terreiro e enredo inéditos, escolhidos com o prazer de quem está há quatro anos sem fazer um disco solo, depois dos incensados Entidades I (2002) e Okolofé (lançado em 1990 no Japão e em 2000 no Brasil). Wilson adianta para o Jornal Musical quatro canções do roteiro - "Cabrocha do Quilombo", "Benzida", "Sabiá" e "Ré sol si ré", esta última com o parceiro mais constante Nei Lopes. "Vou gravar músicas antigas, dos anos 50, e também umas mais novinhas, feitas há meses", diz, com a delicadeza que lhe é característica e que não combina com o ofício que desempenhou por 35 anos. Wilson foi carcereiro de Bangu 1, penitenciária das mais violentas do país. Foi lá onde viveu uma das cenas marcantes da longa carreira, iniciada na quadra da Mocidade Independente de Padre Miguel.

"Estava fazendo um confere no pátio e um dos presos virou para o camarada e disse: 'Aí, o caído fez um samba bonito'.

aNo mesmo instante começou a tocar no rádio 'Senhora Liberdade'. O rapaz veio correndo e me deu um abraço forte. Disse que também era compositor. Saí de lá com um nó na garganta", relembra. Este samba (chamado inicialmente "Violenta emoção" até o violonista João de Aquino sugerir a mudança) já rendeu muita história bonita. Uma delas foi durante a passeata pelas Diretas Já, na Avenida Rio Branco, Centro do Rio de Janeiro. Wilson Moreira conta que nem conseguiu se aproximar do comício. "Sentei no meio fio e fiquei estatelado ouvindo o samba na boca daquela multidão. Foi muito emocionante".

"Senhora Liberdade" é uma dos clássicos da dupla, que se conheceu em 1974 através de Delcio Carvalho. O amigo em comum foi logo dizendo: "Nei, vou te apresentar um cara que bota música até em bula de remédio". Era Moreira. A partir deste encontro nasceram dezenas de sucessos, entre eles "Gostoso veneno", faixa-título de um disco que Alcione lançou em 1977, Morrendo de saudade, registrado por Beth Carvalho no álbum Na fonte, de 1981, mesmo ano em que Clara Nunes interpretou "Deixa clarear". Em 1982, Elizeth Cardoso gravou "Cidade assassina" no long play Outra vez. Há muitas maravilhas. Algumas foram compiladas nos antológicos A arte negra de Wilson Moreira e Nei Lopes, de 1980, e O partido muito alto de Wilson Moreira e Nei Lopes, de 1985.

Quando passou a criar melodias para as letras do Nei, Wilson ainda compunha muito com o Candeia, que ardeu de ciúmes do parceiro. "Candeia não gostou muito não. Com Nei também já houve confusão. Quando pintam novos parceiros, é normal despertar aquele lance da posse", aquiesce. Os dois viviam colados de tal maneira que, certa vez, um colega da escola de Neizinho, filho do Nei, perguntou para o moleque o nome dos pais. Ele respondeu, sem pestanejar: 'Wilson Moreira e Nei Lopes'. Alicate ainda se diverte ao lembrar deste episódio. "Criança tem cada uma...", diz, às gargalhadas o compositor quase septuagenário, nascido em 12 de dezembro de 1936, pai de quatro filhos que, por sua vez, lhe deram quatro netos, todos muito unidos na saúde e na doença.

aDizem que só nas horas difíceis é que a gente vê quem são nossos verdadeiros amigos. Wilson descobriu os seus em fevereiro de 1997, quando sofreu um acidente vascular cerebral. "A pressão foi a 28 sem que eu percebesse. Eu estava bem, tinha até cantado na noite anterior. Quando os médicos falaram que era derrame, entendi a gravidade porque estava lúcido, mas meu corpo não obedecia mais. Foram três meses de cama, seis meses na cadeira de rodas e um ano de fisioterapia intensiva", enumera. Dois meses depois, ele e a mulher, a pesquisadora e empresária Ângela Nenzi, foram surpreendidos por um show em seu benefício, organizado pelos amigos João Nogueira, Elza Soares, Walter Alfaiate, Cristina Buarque e Paulinho da Viola, entre muitos outros. Foram quatro horas de samba, no Teatro João Caetano, sob a direção musical de Paulão Sete Cordas.

Moreira: "Gosto de compor na calada da noite"

Um dos discos seus que mais gosta é Peso na balança, jamais relançado em CD. "Tenho uma cópia pirata e fico ouvindo quando dá saudade". Saudade como aquela que bate dos amigos, entre eles o violonista Raphael Rabello, morto em abril de 1995, aos 32 anos. "Raphael falava assim: 'Wilson, disco que tem música tua é meu ponto fraco'. Era por causa das dissonâncias". Os vivos ausentes também fazem falta, como Zeca Pagodinho. "Ele anda muito ocupado". Os dois se conheceram nos anos 80, no subúrbio de Cordovil, onde Wilson morava. "Um pouco depois fui na casa dele, em Del Castilho, porque ele estava montando repertório para o primeiro disco. Assim que cheguei, ele veio me dizer que gravaria 'Quintal do Céu', minha com Jorge Aragão. Eu falei de 'Judia de mim', que tinha feito sozinho, mas não gostava da segunda parte. Zeca refez e viramos parceiros".

aWilson Moreira calcula por alto ser autor de mais de 500 músicas inéditas - algumas feitas a quatro mãos com bambas como Zé Ketti, Carlos Cachaça, Nelson Cavaquinho, Candeia, Mano Décio e os únicos vivos Nelson Sargento e Paulo César Pinheiro. Das gravadas, já perdeu as contas. "Sou um negro madrugador e gosto de compor na calada da noite. Acendo a lanterninha e boto a cabeça para trabalhar. Até aprendi com Guerra Peixe a fazer uma frase musical muito boa, mas não lembro", diz. "Então, o jeito é registrar no gravador porque sabe como é, esqueceu, adeus viola", brinca o sambista, que foi aluno de harmonia do maestro Guerra Peixe no final dos anos 60 e ouviu a seguinte declaração do mestre, depois de mostrar um samba fresquinho: 'Você tem a harmonia toda no peito. Não precisa disso aqui, não. Pode continuar estudando, mas espero que não lhe atrapalhe'.

Noel Rosa é que estava certo: samba não se aprende no colégio. Uma das provas mais categóricas é a vasta e admirável obra de Wilson Moreira, composta por intuição. "O Paulinho Pinheiro é um dos que costumam me entregar letra para musicar. Com o Nei Lopes funciona diferente. Geralmente eu dou a idéia e ele completa ou ele faz a primeira e deixa a segunda para mim", explica. Longe dele se achar poderoso. Wilson guarda na gaveta um punhado de versos ainda à espera de melodia. "Tenho letras dos dois que ainda não me inspiraram". Há mais de 20 anos existe promessa de parceria com Aldir Blanc, por exemplo. "O Aldir me mandou umas letras ótimas, mas não gostou das músicas que botei. Quando ele menos esperar, vai receber uma melodia à altura", promete.


Alguns sucessos:
Candongueiro (Wilson Moreira / Nei Lopes)
Coisa da antiga (Wilson Moreira / Nei Lopes)
Formiga miúda (Wilson Moreira / Sergio Fonseca)
Goiabada cascão (Wilson Moreira / Nei Lopes)
Gostoso veneno (Wilson Moreira / Nei Lopes)
Gotas de veneno (Wilson Moreira / Nei Lopes)
Judia de mim (Wilson Moreira / Zeca Pagodinho)
Não tem veneno (Candeia / Wilson Moreira)
Senhora Liberdade (Wilson Moreira / Nei Lopes)
Só chora quem ama (Wilson Moreira / Nei Lopes)

* Texto retirado do site http://www.jornalmusical.com.br


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