A história da sociedade brasileira nos revela
momentos, em que é possível perceber
a criação de mitos originários
de tipos, ou melhor, encontra-se o “tipo”
quando se explica o “mito”, quando este
se renova ideologicamente. Por exemplo: Macunaíma,
o célebre personagem preguiçoso da
literatura pode ser considerado um mito, tanto quanto
na construção da imagem do “carioca”
ser um tipo muito comum, que simboliza a cidade
do Rio de Janeiro. Esta é a diferença
do carioca para os outros cidadãos brasileiros,
sua realidade histórico-social é complexa
como em qualquer lugar, mas o tipo que se elabora
aqui, o personagem carioca, revela-se inteligível
a partir do momento em que se torna mito. A transformação
se dá pela ideologia, que quanto mais afasta
a realidade do tipo, mais a torna alegórica
e inofensiva. Ficcional e divertida.
Sim, o carioca pode ser entendido como signo,
símbolo, metáfora, em qualquer forma
de conhecimento, sem prejuízo para a compreensão.
E, sem a folclorização de alguns
outros tipos já forjados nesta mesma sociedade,
mas que resvalam na paródia como o Jeca
Tatu, por exemplo, que além de sofrer as
agruras do interior, sua imagem e inocência
ficaram datadas, situadas em uma faixa de tempo.
O Carioca é um ser em constante ebulição,
mas não perde a aura mítica. Revela
e espelha muito do que são as configurações
e os movimentos da sociedade, em diferentes perspectivas,
em distintos momentos. E, neste jogo tático
de construção de identidades, temos
por um lado, as fronteiras sociais e de outro,
as zonas simbólicas de contatos. E a cidade
é o local onde se desenrolam estas ações.
Sua resistência, e seu renascimento constante
é o que faz o carioca reconhecer sua própria
história e da cidade em que vive, através
do convívio de seus habitantes com os espaços
e as particularidades dos bairros. É como
se a cidade habitasse nos cariocas e não
o contrário. Ou, citando o filósofo
Walter Benjamin, que dizia que o homem habita
uma cidade real e é habitado por uma cidade
de sonho. E, talvez a melhor definição
é a de que o homem sonha e constrói
cidades que o vão habitando; o homem vai
se apropriando da cidade que vai inventando e
reinventando. É um desafio infinito.
* A frase e a idéia sobre habitar
e ser habitado pela cidade vem de um ensaio de
Sérgio Paulo Rouanet sobre o trabalho de
Walter Benjamin referente à cidade de Paris
“A Paris do Segundo Reinado”, em Dossiê
Benjamin, Revista USP nº 15 setembro de 1992. |