- Mãe, papai já saiu! Canta uma música
pra gente?
A mãe, Flordemira Gonçalves de Moura,
pegava o cavaquinho e cantava um samba, que poderia
começar assim: “Meu Deus/ A vida é
boa/ Vamos viver?/ Pra que lamentar a sorte/ O pior
de tudo é a morte...”, as crianças,
os filhos Paulo, Aristides e José Carlos,
adoravam, eram como canções que fazem
a roda, a ciranda, e à noite, ninar, mas
eram sambas. E sambas com maestria, inspirados por
gente da melhor tradução do gênero,
Ismael Silva, Donga, Sinhô ou Noel e, principalmente
pelo morro de São Carlos, e o bairro do Estácio,
onde ficava a pequena, mas habitável casa
de dois pavimentos. No térreo, uma birosca
comandada pelo marido austero que não sabia,
e certamente não apoiaria, o lado sambista
de Dona Flor, como era conhecida, mas gostava das
rodas de samba e choro na frente de seu pequeno
bar, o movimento de fregueses, muitos deles compositores
de primeiríssima linha, trazia lucro com
a venda de bebidas e de quitutes preparados por
Dona Flor.
Foi um período longo, intenso e vibrante.
O Rio de Janeiro, dos anos 30 aos 70 viveu diferentes
épocas, de fausto e glória, de crises
e profundas mudanças, mas sempre uma cidade
mitológica e que ela adora. E fala “daqueles
bons tempos” porque este é o tempo
em que ela mais viveu a cidade, o Estácio
e o morro, aliás, o “berço do
samba”, mais que um axioma, também
é título de outro samba seu.
Hoje, Tia Flor, como é mais chamada pela
família, mora com a neta Simone em Jacarepaguá.
Tem 84 anos, e uma memória que surpreende,
pois revela-se fresca e intacta. Fala pausadamente,
e as frases saem econômicas, mas bem articuladas
uma na outra.
“Naquele tempo o morro não era violento
como hoje”, suspira de saudades em evidente
descontentamento em ter que comparar as épocas.
“Vivíamos com a dificuldade que é
de costume dos pobres”, continua, “mas
vivíamos com tranqüilidade. Tinha muita
amizade e o samba sempre era a música das
festas e reuniões que aconteciam no bairro”,
completa já com ar nostálgico de deslumbramento.
“Ah, os sambas...”, retoma o sorriso
franco.
“Aprendi a fazer, quer dizer, acho que sei
fazer, vendo e ouvindo os batuqueiros que paravam
na tendinha do Tide, o meu marido, e nos rádios
também. Mas os das rodas na birosca eram
os que me chamavam mais atenção. Nunca
soube direito o nome daqueles compositores, me limitava
a servir porções de salgadinhos e
cerveja nas mesas e escutava eles. Às vezes
faziam sambas ali mesmo. Talvez estivesse ali alguém
que mais tarde ficou conhecido. Alguns chegaram
a ter sambas gravados pelos cantores da época,
mas sem maior destaque fora da região”,
explica e arrisca lembrar-se de alguém, “Seu
Jorge Cabeça, Seu Zezinho, Mário Russo,
eram os nomes que me lembro. Eram sambistas e gostavam
de tocar lá na tendinha”.
Tia Flor nunca fora a uma escola de samba. A primeira
vez, há alguns anos, sua neta a levou na
quadra da Caprichosos de Pilares. “Mulher
casada não ia a samba sozinha”, corrige.
Mas, e os sambas Tia Flor? De onde vinham suas inspirações?
“Tinha coisas do sofrimento meu, minhas dores
na perna que nunca foi boa”, exagera, “o
samba (canção) Lágrima, por
exemplo, fiz por causa da história de uma
vizinha amiga. O marido a traiu, mas ela gostava
tanto dele que o perdoaria, mas mesmo assim ele
foi embora com a outra. E ela naquela depressão
toda, e eu fiz a música, letra, tudo junto,
entendeu?” Entendi. Mas, e os ídolos?
Admirava alguém em especial? Por um momento
Tia Flor para de falar. Interrompe o raciocínio
e seus olhos marejados se tornam distantes, ainda
que sem perder a luminosidade. “Gosto do Cauby
Peixoto”, diz num tom resignado. “Uma
vez conheci o Nilo Chagas. Ele cantava no Trio de
Ouro com a Dalva (de Oliveira) e o Herivélton
(Martins). Foi na casa da minha irmã, em
Olinda. Lá de vez em quando tinha roda de
samba, e neste dia também estava o Ciro Monteiro,
e o Cauby era primo do Ciro, e tinha um rapaz acompanhando
o Ciro, eu acho que era ele, o Cauby! Evidente que
não tinha coragem de dizer que também
fazia sambas. Só admirava”, conclui
com um sorriso reticente.
Tia Flor do samba. Dos sambas desconhecidos. Como
novos clássicos, entoa. E para nós,
ouvintes, são como se já tivéssemos
ouvidos tais melodias antes. Soam familiares e ao
mesmo tempo, inéditas. A ingenuidade, tal
qual a do ideal de ascensão social gerada
pela utopia do carnaval, aquela em que a alegria
dos componentes de uma escola de samba cobre com
os momentos de glória suas vidas obscuras.
É esta ingenuidade que Tia Flor carrega,
como traço fundamental daquilo que se define
a pureza, tão rara aos seres humanos.
Cleber Cordeiro
*Obs.:
Este texto originalmente produzido para a revista
Canto Carioca, é reproduzido aqui em homenagem
à Tia Flor que morreu no último dia
06 de Fevereiro. Deixará saudades.
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| Foto de Bianca Paroli |
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