Tudo o que ele queria era curtir aquela tarde de sábado, com o sol ardendo o rosto, implorando por uma cerveja. Resolveu que ir ao samba seria a melhor pedida. Se vestiu à caráter, com sapato brilhando, calça de linho, camisa listrada, parecendo o bom e velho malandro da Lapa. Mas faltava um item, aquele que determinava a condição de sambista puro na essência: Um chapéu!
Olhou pro relógio e descobriu um tempo curto para realizar a compra. Apressou o passo e chegou antes da porta da loja se fechar. Experimentou vários mas pensou: “Tem que ser um Panamá com fita vermelha!” já com o preferido nas mãos.
Depois do traje definido, restava seguir o roteiro das boas rodas de samba. Preferiu pelo subúrbio, onde “o samba é lamento, é sofrimento, é fuga dos meus ais”. Ouviu o pandeiro, entrou. Olhou em volta, procurou outros “malandros”, não encontrou. Comprou a cerveja e uma branquinha pro santo.
Ficou com o cotovelo no balcão batendo com os dedos no copo. Parecia um ser estranho no meio de Mauricinhos e Patricinhas que se espremiam em volta da roda se esgoelando no refrão, para desespero dos músicos.
Fechou os olhos ao ouvir um samba do Cartola e viajou no tempo...
Se viu em um quintal, cercado pela nata do samba, operários da música popular, construindo a cultura em sua pureza. Sentiu o cheiro vindo da cozinha, da panela de feijão conduzido pelas baianas. Acompanhou o requebrado da mulata, que acabara de ter um samba composto em sua homenagem, ali, na hora, no momento em que chegara e chamara a atenção dos músicos.
Chegou a acompanhar com palmas, um partido alto entre dois participantes, malandros dos versos, navalhas na língua.
Sentiu uma imensa saudade de um tempo que não viveu.
Reabriu os olhos de volta à realidade. As músicas são as mesmas, às vezes, até o local também. Mas a tradição agora é meramente fantasiosa. Descobriu que não basta se vestir de sambista. O samba é muito mais que isso. E só quem viveu sabe o seu valor. “ O samba nunca foi de arruaça”, o samba não é modismo. É mais que uma religião. Onde os antigos compositores são santos, seus sambas são orações, a cerveja é a vela, os instrumentos são a devoção e a roda é o seu altar.
Mas a fé de um sambista não pode se abalar. É preciso continuar a corrente, seja com os mais velhos sacerdotes musicais ou com a juventude que busca a salvação.
Ao voltar pra casa, depositou o seu chapéu ao lado da imagem de São Jorge e agradeceu por ter nascido sambista...