Passo bêbado tropeçando nas putas com
cara de travestis, ou o inverso, já nem sei.
Ouço ao longe um palavrão, mas acho
que não é comigo. A última
gota do último gole ainda estava por vir,
mas eu precisava de música.
O dia não foi bom. Perdi o grande amor nas
pétalas do bem me quer e nem sei exatamente
o motivo.
Moacyr Luz, o poeta da Guanabara, já me dizia:
“Jogando fora a vida em mais uma bebedeira...”
Mas, como esquecer o que não sai do pensamento?
Sei que amanhã, a dor de cabeça vai
me relembrar os fatos, mas que se dane! Eu preciso
ser feliz...
A Lapa ainda é o lugar ideal para afogar
as mágoas. Passo por debaixo dos seus arcos
e faço um pedido. Sei que não é
um arco-íris e nem tampouco haverá
um pote de ouro, mas não quero morrer sozinho.
Ergo as mãos em lamento e peço que
olhem por mim.
Ouço uma lira e penso ser anjos em coro vindo
me buscar. Recolho uma rosa esquecida no chão.
Aspiro ao aroma e imagino quem seria tão
cruel a ponto de rejeitar um carinho.
Chego mais perto da orquestra angelical. Dentro
de um boteco, quatro jovens tocam para uma pequena,
porém, animada platéia. Junto-me a
eles e me ofereço mais um gole de cerveja.
Quanto rosto bonito! Quanta alegria!
Das cordas do bandolim saem lágrimas. Lágrimas
que Jacob ensinou. A flauta completa o lamento,
mas arranca de mim um sorriso. Lembrei-me do meu
pai. Admirador do Choro. Homem que nunca chorou
e nem me deixava chorar. Por um instante, não
ouvia mais nada. Apenas observava as pessoas meneando
a cabeça. Os dedos tamborilando o pandeiro,
como se estivessem marcando o compasso do meu coração.
O ir e vir dos copos suados e o violão soltando
acordes como se nunca mais...
Nunca mais, era a palavra que insistia em gritar
nos meus ouvidos!
Porquê isso tudo agora?
Porquê encerrar com lágrimas o que
começou com sorrisos?
Retorno atento à música. Migalhas
de Amor. Tudo o que sobrou pra mim. Farelos de uma
vida mal começada.
Aplaudo comovido o final da melodia. Pago minha
cerveja e antes de ir embora, peço licença
para ofertar a rosa à uma jovem, que ao ajeitar
o cabelo, me fez lembrar de minha amada.
Saio do bar feliz, porque vi um sorriso que me fez
ter esperanças de dias melhores.
Segui na rua assobiando a melodia, e sem tropeçar
nas infelizes que não têm amor...
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