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| Saiba
como é o processo de criação
de um desfile de escola de samba |
Do sonho à realidade: como nasce um desfile
de escola de samba
São só dois dias de festa, mas o preparo
dura quase o ano inteiro e envolve centenas de profissionais.
Muitos segredos, imaginação à
solta. Mas de onde vem tanta inovação,
tanta surpresa?
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De que é feito um carnaval? De suor e de
sonho. De uma busca que começa quando mal
acaba o ano anterior. “O pós-carnaval
é o grande pique do carnaval", comenta
o carnavalesco da Viradouro, Paulo Barros.
"Acaba o carnaval, a gente tem que dar uma
descansada, uns 15 dias, pelo menos. Geralmente
o descanso dura um mês, um mês e meio”,
conta Fran Sérgio, da comissão de
carnaval da Beija-Flor.
Março e abril são meses dedicados
à pesquisa de idéias. “Assim
que começa o processo de pesquisa do carnaval,
definimos o que será fantasia, o que será
alegoria, quais serão os elementos que
vamos utilizar. Para o desenhista fazer a arte
final, temos que ter essas imagens originais:
imagens de animais, de natureza, de coisas concretas
ou até mesmo abstratas, para podermos materializar
isso no desenho”, explica Ubiratan Silva,
da comissão de carnaval da Beija-Flor.
“É livro, livro e livro”, afirma
Rosa Magalhães, carnavalesca da Imperatriz
Leopoldinense. ”Primeiro eu vejo o texto.
Eu acho que o texto te traz muitos subsídios”,
“O Paulo tem algumas idéias e nós
começamos a discutir. E meio que vamos
rezando para que seja uma coisa iluminada. De
repente, ele grita: é essa”, observa
Luiz Carlos Bruno, diretor de carnaval da Unidos
da Tijuca.
“De repente estamos andando na rua ou pegamos
um artigo de revista ou mesmo de jornal, ou ficamos
atentos a um acontecimento... E pensamos: talvez
isso possa dar uma história. E aí
começamos a viajar juntos no encaminhar
da proposta”, revela Márcia Lávia,
carnavalesca do Salgueiro.
Escolhido o tema, há as reuniões.
É preciso dividir o enredo em setores,
decidir como serão as alegorias, os figurinos.
“Temos três fantasias. Com mais uma,
que falta terminar, quatro”, constata Paulo
Barros, em conversa com sua equipe.
Se a escola é tricampeã e vai para
a avenida lutar por mais um título, imaginem
a responsabilidade. “Você tem que
ser tetracampeão. Aquilo fica ecoando no
seu ouvido”, admite Ubiratan Silva.
E se engana quem pensa que o espetáculo
inteiro vive na imaginação do carnavalesco.
É ele quem assina o carnaval, mas as escolas
têm equipes de criação, que
opinam nos projetos, acrescentam novidades.
“Não tem estrelismo. Chamamos o ferreiro,
o marceneiro, o escultor para discutirmos o total
do trabalho”, garante Luiz Carlos Bruno.
Na Viradouro, Paulo Barros compartilha o planejamento
e a execução com o diretor de carnaval.
“Ele é o cara que vai administrar
todos os pedaços da escola. Fazer juntar
o quebra-cabeça”.
Em setembro e outubro, as escolas selecionam o
samba-enredo, trilha sonora do espetáculo.
Os compositores criam a partir de um resumo do
tema e das explicações dos carnavalescos.
“A melodia, para mim, dentro desse processo
de escola de samba, de desfile, é fundamental.
Acho que ela é 70% do sucesso da escola”,
acredita Renato Lage, carnavalesco do Salgueiro.
“Muitas vezes já aconteceu de eles
virem com uma coisa tão maravilhosa que
a gente mudou um carro ou mudamos uma ala. Eles
às vezes nos dão subsídios
para criarmos uma outra coisa”, afirma Luiz
Carlos Bruno.
Samba definido, é hora de tirar o carnaval
do papel. Primeiro é necessário
planejar orçamento e cronograma. Encontrar
material certo: a quantidade exata com bom preço
no mercado.“O que você acha dessa
combinação?”, pergunta Paulo
Barros, em uma avaliação de tecidos.
“Eu acho legal. Só acho que você
deveria usar um pouco mais desse tecido e menos
do outro”, opina Luiz Carlos Bruno.
Depois todas as escolas contam com a ajuda de
um maqueteiro. Não confunda com assessor
de campanha política. O maqueteiro faz
moldes de adereços, maquetes de carros.
A maioria das escolas confia em um único
artesão.
“Tem coisas que a gente sabe que vai surpreender,
que vai ganhar um estandarte, que será
a melhor fantasia. Esse feeling eu já tenho
desde que quando eu comecei”, comenta Bruno
Romero, da produção de moldes.
Setecentos anos atrás, na Itália,
foram criados os ofícios para o aprendizado
e desenvolvimento das artes. Era a Renascença.
Agora, no século XXI, o encontro de tantos
artesãos acontece na Cidade do Samba. É
o novo renascimento.
Em cada galpão, uma escola. Em cada escola,
muitos ofícios. “No carnaval, você
reúne todas as artes ao mesmo tempo. Você
reúne escultores, artistas, pintores, marceneiros,
carpinteiros, pintores de arte. É muita
arte junta. Você respira arte dentro de
um barracão de escola de samba”,
diz Ubiratan Silva.
Os carros começam a tomar forma. Em muitos
casos, o que na avenida parece alta tecnologia,
é feito à moda antiga, pela mão
do homem.
“São toneladas e mais toneladas de
coisas pequenas: a pedrinha, a lantejoula... Que
você vai botando. Então isso não
é máquina que faz e nem vem pronto.
É mão, dedo, cola... São
horas de trabalho”, explica Márcia
Lávia.
Quando começa o acabamento, lá vem
bronca do chef.
“Tem profissional que treme quando o Renato
Lage está na área, porque ele é
demais. Ele vê um negócio lá
em cima... Ele passa o olho, parou em frente ao
carro e pronto! A pessoa treme”, conta Márcia
Lávia.
“Ué, mas eu acho que tem que ser
assim”, completa Renato Lage.
Carnavalesco é como diretor de cinema.
Tem que deixar na avenida a sua mensagem, a sua
assinatura.
“O Paulo Barros tem a assinatura dele. O
Lage tem assinatura. A Rosa tem assinatura. Eu
tenho a minha assinatura. São tão
fortes que a gente não precisa se preocupar
com isso. Eu abro o barracão até
para os inimigos, quanto mais para os amigos”,
avalia Chico Spinoza, carnavalesco da Caprichosos
de Pilares.
“A nossa preocupação é
sempre fazer um trabalho altamente didático.
Um trabalho que as pessoas entendam com leitura.
Então o legal é você passar
uma mensagem, as pessoas entenderem a mensagem
e viajarem naquilo”, analisa Renato Lage.
Fevereiro é mês de pura tensão.
Tudo simplesmente tem que dá certo. Os
ensaios técnicos, o pessoal que cuida de
harmonia e evolução, faz e refaz.
Muda coisas de lugar, acerta tempos de entrada
de cada setor.
“Você, tendo um carro alegórico
com 240 pessoas para você comandar e fazer
com que elas tenham o mesmo comportamento, para
que a coisa saia uniforme, de maneira limpa, daquela
forma que você idealizou, não é
fácil realmente”, constata Paulo
Barros.
As comissões de frente ensaiam na moita.
Não tem a menor graça revelar as
surpresas, os efeitos especiais.
“Esse ano vai ser uma surpresa que eu não
vou falar. Carnaval tem que ter essa coisa feérica...
São só três dias, então
tem que ter um pouco de loucura também”,
comenta Rosa Magalhães.
“Eu fico doido que acabe, porque, na verdade
quando ele começa, a gente fica preocupado
com os erros e a gente sabe que não está
livre desses erros. Então a escola começa
a desfilar, está tudo certinho e eu fico
torcendo para que aquilo termine o mais rápido
possível, para que a gente não sofra
nenhum tipo de problema e consiga chegar lá,
naquele tão sonhado e vitorioso campeonato”,
declara Paulo Barros.
Claro que ninguém sabe o que está
no envelope dos jurados. Mas nada como deixar
a avenida com aquele sentimento de vitória.
“Você só sabe se você
foi bom ruim, se o seu espetáculo deu certo
quando você vira a Marquês de Sapucaí
e você ouve a Sapucaí inteira gritando.
É campeão”, diz Ubiratan Silva
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