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CONFETES E SERPENTINAS |
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RÁDIO BERÇO DO SAMBA |
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GRUPO BERÇO DO SAMBA
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| Feitiço da Vila |
Eram quase duas da manhã, quando percebi que já levantavam as mesas e cadeiras do bar.
Ergui os olhos em busca de alguém que insistisse em virar mais um copo, mas me encontrei sozinho.
Sem argumentos, paguei minha conta, acendi um cigarro e saí...
A rua estava deserta. Todos os lugares fechados.Até que meus olhos perceberam que alguém também não queria parar de beber.
Perto do ponto de ônibus, vi um garçom servindo mais uma cerveja para um homem de aparência tranqüila. Olhei em volta e não vi outra mesa.
Apenas uma cadeira vazia ao lado do rapaz de branco, com cigarro na boca, batendo com os dedos na mesa. Pedi para sentar-me ao seu lado, e ele me ofereceu um copo.
Começamos a conversar sobre a falta de opções nas madrugadas do meio de semana, quando queremos prolongar o delicioso ondular da cerveja do copo para a garganta, da garrafa para o copo, e assim eternamente...
O rapaz, que me pareceu um pouco deformado, talvez por conta do meu teor alcoólico, insistia em deixar cheio o seu copo e dizia que buscava inspirações para uma nova canção. Disse-me que tinha que compor um samba, bem bonito para ofertar à sua amada. E continuava a tamborilar os dedos em busca da perfeita harmonia. Esses jovens que não sabem o que é boa música ficam buscando palavras difíceis achando que valorizam a composição. Resolvi perguntar se ele já havia feito algum samba. Tentaria avaliar o seu talento, e talvez pudesse ajudá-lo com alguma estrofe de ocasião. Ele apagou o cigarro e começou:
“Quem é você, que não sabe o que diz...”
Interrompi batendo na mesa!
Pera lá! Esse samba é do Noel Rosa, meu rapaz!
O garçom que ficara o tempo todo ao nosso lado, interfere:
“E com quem você acha que está bebendo?”.
Estático e assustado, primeiro resolvi verificar minha pulsação.
Teria eu morrido após o trago da cachaça? Ai, minha cirrose! Pus a mão no coração, me belisquei e todos os métodos confirmavam minha sobrevivência.
Enquanto as gargalhadas ecoavam na mesa, eu tentava entender o que estava acontecendo. Esfreguei meus olhos e percebi que não estava vendo tudo torto.
Estava mesmo diante de Noel! Mas como seria possível?
Noel acende outro cigarro, e reclama:
“Se você ficar limpando a mesa, não me levanto e nem pago a despesa!”
O garçom se desculpa e se afasta um pouco, ainda rindo de mim.
Olho pro fundo do copo e não vejo nenhuma explicação. Noel, de novo tamborilando os dedos me diz:
“Aqui é a Vila, meu nobre! Do jogo de bicho, da Boulevard brasileira, da Princesa Isabel! Onde tudo acontece a qualquer hora do dia. O passado e o presente se misturam e tudo acaba em samba!”.
Nesse momento vejo um homem acendendo a luz de um lampião que o vento apagou. No chão da rua, um trilho corta o asfalto. Acho que voltei no tempo...
Resolvo aproveitar a situação para saber mais desse poeta do samba, mas ele me nega a informação:
“São quase cinco da manhã! Pega o bonde pra Copacabana e vai conversar com o Carlos Drummond de Andrade. Ele está sentado no calçadão. Eu tenho que terminar meu samba...”.
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