Ana Lúcia Rabello

Resumo da Ópera

O carnaval no Rio de Janeiro passou. Ficam algumas considerações, a meu ver, importantes a respeito das escolas de samba. Por sua trajetória e importância na nossa tradição cultural, reporto-me em particular a elas. Causa-me sempre uma grande irritação o preço que as escolas pagam pela modernização do seu aspecto visual e melódico. Absorvidas por uma sociedade que constituiu o cultural como espetáculo e que instaura por toda parte os elementos culturais como objetos folclóricos de uma comercialização, assumiram ares de grande espetáculo, afastaram-se das suas tradições e impuseram um papel secundário a sua comunidade.

   Dentro desta grande festa não há espaço para os símbolos de africanidade, cuja presença fortalecia uma memória de identidade étnica. Onde seus fundamentos estão arraigados aos valores e às formas de sociabilidade, conjugados aos padrões culturais, transmitidos principalmente pelas instituições religiosas negras. A cultura não é estática, fato notório. Transforma-se de acordo com os novos modos. É um evento observado na trajetória do próprio surgimento do samba, que deixa de ser rural para se tornar urbano, e também nas representações em forma de agremiações de cada localidade, que disputavam o favoritismo do público nos desfiles. As novas modalidades que regem as normas dos desfiles e o conceito do que é belo, são estruturas oriundas de uma elite. São antagônicas a esse modo de expressão porque não o respeita. Ignora-o por não reconhecê-lo em sua importância como identidade social do agente produtor daquela festa.

   Lembro-me do tempo em que cada escola tinha a sua própria cadência, uma batida própria. Ouvia os mais velhos dizerem que cada uma consagrava um toque ao seu orixá fundador. Daí conseguirmos reconhecer, no passado, cada agremiação por seu batuque. Era de um orgulho danado ver as comissões de frente. A escola era apresentada pelos seus fundadores, vestidos elegantemente, provavelmente estaria ali a importância de um passado de luta e a sublimação do resultado positivo diante de tanta persistência. Outro símbolo, que está desaparecendo silenciosamente é a ala das baianas. Já não carregam em sua indumentária pencas, panos da costa e balangandãs. Foi abduzida pelo enredo. Muitos carnavalescos e figurinistas pisam muito na bola quando elaboram a roupa dessas senhoras. Esquecem que são mulheres que em sua maioria passaram por todos os estágios dentro da agremiação. São senhoras!!! Além do excesso de peso que precisam suportar na avenida saem descaracterizadas de seus símbolos de distinção. E por serem senhoras e não terem mais tanta resistência são substituídas por mulheres mais jovens...

   Foram muitas as tentativas de apagar a importância negra nas participações culturais da cidade. Reservando-lhes um espaço distinto dentro da geografia da cidade, assim como na produção intelectual. Inicialmente utilizando a força. Hoje a tática é outra, o processo é silencioso, lento e constante: desapropriam o agente produtor de sua importância e incorpora para si os bons frutos dessa árvore frondosa. Glamourizadas, as escolas de samba tornam-se indústrias produtoras de um capital que movimenta bilhões. Tornaram-se um grande filão. Todos querem dar uma beliscada... 

   Se nas escolas de samba, o que menos se vê é samba (samba no pé ou na estrutura melódica) em muitos pontos da cidade, ocorrem focos de insurgência! Grupos que procuram preservar o samba. Uma galera engajada na preservação da estrutura tradicional. Cuja pesquisa de repertório os fazem beber na fonte dos antigos mestres e a incorporarem valores. Tocam e cantam como os antigos. Batem cabeça para a ancestralidade. E como os antigos, também subvertem a ordem, batucando em pontos estratégicos. Evocando os espíritos libertadores de uma padronização musical. Quando surgem as rodas de samba, como eram no princípio, se enchem de graça e beleza. E os quitutes tão admirados (angu à baiana, feijão amigo, caldos disso e daquilo, sopas de entulho, a nossa feijoada....) ganham status em detrimento da saladinha, indicada pelo nutricionista, cuja queima de tais monstros calóricos, será proporcionado por muito samba no pé, bater de mãos e umbigadas. Manifestação e combustão espontânea, sem a necessidade de academias... Os novos poetas extravasam o seu lirismo, mostrando que a velha fórmula não tem idade para apreciação. A memória busca informações até então adormecidas e surgem sambas imortais, os clássicos! É quando fico com a certeza que vale à pena resistir.

   Dentro desse raciocínio tenho que concordar com Nelson Sargento quando ele canta:
                                            “Samba, agoniza mas não morre
                                             Alguém sempre te socorre
                                             Antes do suspiro derradeiro”
Deixo aqui o meu recado.
 Asé


Ana Lúcia Rabello

   
   
   
 

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