CONFETES E SERPENTINAS
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ENTREVISTAS

" Entrevista concedida ao jornalista Cléber Cordeiro."
Aldir Blanc no Berço do Samba

São tantos anos, mais precisamente 60, de música, política e futebol. E, acima de tudo, de Rio de Janeiro. Aldir Blanc, que em suas letras de música é mais crítico que em seus artigos que periodicamente escreve para jornais e revistas, já passou e passeou pelas diversas áreas e lugares de cultura: jornais O Pasquim, Estadão, O Dia, agora JB, autor de alguns bons livros, parcerias com João Bosco, Guinga, Moacyr Luz e Jayme Vignolli, dentre outros, além de cronista e amante incondicional do Rio. Aldir, nascido no Estácio, mas salgueirense de coração, conversou com o Berço do Samba, e obviamente, falamos mais sobre o que realmente nos importa: o carnaval.

Berço do Samba: Você que é um apaixonado pelo carnaval carioca, pelo Salgueiro e pelo carnaval de rua, já fez ou tem vontade de fazer música pra carnaval? Vale samba-enredo, de bloco...

Aldir Blanc: Fiz marchinhas, poucas, em parceria com Maurício Tapajós para Teatro de Revista e uma delas, a única gravada pelo próprio Maurício, sobre aquela “raspadinha” que deixou o Presidente Itamar Franco doido no Sambódromo, lembra? (Aldir se refere a modelo Lílian Ramos, que apareceu sem calcinha ao lado do presidente em um camarote no carnaval)


BS: O Muvuca do São Carlos tem você como enredo. Em quais blocos (ou escolas) você já foi enredo? E qual te marcou mais?

AB: Tenho enorme dificuldade de lidar com público, homenagens,......etc. Questão de temperamento. Que me lembre, fui enredo do “Não Muda Nem Sai de Cima”, aqui da rua em que moro; do “Segura pra Não Cair”, do Bar Estephânios, em Vila Isabel; já ajudei com texto ao enredo do “Perereca da Vizinha”, do Grajaú; já fiz duas ou três vezes, em parceria com Jayme Vignoli marchas para o rancho que saía do bar do Alfredinho, o lendário Bip-Bip, em Copacabana; recebi duas homenagens do Salgueiro, minha escola, e, numa delas, ainda que de maneira simbólica, a gloriosa carteira da Ala dos Compositores; homenageados eu e João Bosco. já fomos nas Escolas de Samba Ilha do Governador, enredo Elis Regina, 1985, Mocidade Independente de Padre Miguel, juntamente com Betinho em 1987 (se não me engano); e em 2004, pela Lins Imperial, em 2005. Poderia dar outros exemplos, mas prefiro declarar logo que meu maior orgulho é ter um personagem de meu primeiro livro, Esmeraldo Simpata-é-Quase-Amor, dar nome a um dos maiores e melhores blocos cariocas de todos os tempos. Quando fundaram o Simpatia, foram escolhidos uma madrinha, um padrinho e um patrono: Dona Zica da Mangueira, Albino Pinheiro e eu. Não pode haver orgulho maior.

BS: Em um artigo você disse que botequim “é o papo”. Você é a favor dos chamados “pé-limpo”, esses bares novos e limpinhos que se auto-denominam botequins?

AB: Confesso que SE O MEU COPO ESTIVER CHEIO não ligo pra isso. Até porque, hoje, não é fácil fazer a diferença. Meu bar/buteco favorito nos últimos anos é o Bar do Momo ali, na Espírito Santo Cardoso, quase Uruguai, graças ao papo da “Turma da Cabeça Branca”, da qual faz parte o meu pai. Acontece que o Momo, de um ponto de vista “folclórico”, poderia ser chamado de pé-sujo, mas é um lugar limpíssimo, com um dos melhores PFs do Rio. Há outros lugares “intermediários”, que não são nem pés-sujos nem “arrumadinhos”. Meu restaurante é o Otto, na esquina da Uruguai com a Conde de Bonfim, que tem uma parte excelente chamada de butequim, pro pessoal beber e beliscar e que não é “arrumadinho” com aspas pejorativas; há o Getúlio, no Catete, o Bracarense, que jamais fui, mas que tem o aval de meus parceiros – não só em música,mas de crônicas de vida carioca, Moacyr Luz, Baiano, Lan, Chico Paula Freitas.... Agora quanto ao papo, o buraco é mais embaixo. Conheço inúmeros lugares que começaram com a bola-cheia e que se esvaziaram de ficar às moscas porque o papo era chato, seja por política reacionária ou por excesso de fanatismo de torcidas. Existem dezenas de variantes que podem acabar com um buteco que era, no começo, agradável.


BS: A síntese do Rio é: carnaval e botequim?

AB: Não sei se chamaria de síntese, mas que eles ajudam o Rio a sobreviver, disso não tenho a menor dúvida!


BS: No período da Ditadura suas músicas com o João Bosco viravam hinos na boca e mente dos jovens da época. Você acha que o jovem de hoje não vê motivos pra contestar, por isso é mais difícil fazer a música “pegar” hoje do que naquele tempo?

AB: Não. Acho que o problema está na execução pública das músicas. Existe uma Lei que não é cumprida e, por isso, o acesso dos jovens à boa música fica prejudicado.


BS: Aldir, com a imprensa morna de hoje em dia, e até conivente, em alguns casos, você (e alguns poucos como o Fausto Wolf), se considera ainda um alternativo, ou uma voz dissonante?

AB: Tem um frase sobre coluna de jornal e sei que o Fausto concorda com ela: Coluna de jornal tem que criar caso ou não tem razão de ser.

BS: Quem você admira no jornalismo hoje, seja na política ou na cultura?

AB: Todos os ex-Pasquim moram no meu coração.

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