Versátil.
Talvez esta seja a palavra que melhor traduz
o espírito realizador de Carla de Oliveira,
organizadora e uma das criadoras do grande evento
afro-cultural I Fórum Negro em Cena.
Percebe-se o sucesso da realização,
não apenas pelos números de apoiadores
e do patrocínio da gigante Petrobrás,
mas também pela satisfação
de público e de participantes de um evento
que tem tudo para entrar no calendário
da cidade. Carla, pós-graduada em História
da Arte do Negro no Brasil e jornalista de profissão,
conversou com o Berço do Samba e nos
falou do enorme trabalho que foi batalhar para
realizá-lo, afinal o tema central passa
pela afirmação da negritude e
a valorização de sua autoestima,
sempre um terreno perigoso para a sociedade
preconceituosa em que vivemos, e também
do enorme prazer em ver tudo funcionar às
mil maravilhas. Aliás, o brilho de seus
olhos reflete a emoção e a sensação
do dever cumprido.
Berço do Samba: Como surgiu
a idéia deste grande evento?
Carla
de Oliveira: O fotógrafo Ierê Ferreira
já tinha em 2003 um projeto chamado Negro
em Cena, mas consistia apenas em uma exposição
de fotografias e no lançamento de um
livro de arte. Então ampliamos o foco
e nos últimos dois anos formatei o projeto
e com patrocinadores mudamos o objetivo do Negro
em Cena, mostrando o negro como protagonista:
ele tem seu samba, sua música e seu bom
futebol, mas também tem a produção
acadêmica, suas fotografias, sua religiosidade,
sua moda, enfim, ele tem sua cultura que é
muito vasta! É o negro anfitrião
através de sua cultura dentro deste evento.
Berço do Samba:Qual o impacto
na sociedade de uma mega realização
como esta voltada para o negro?
Carla de Oliveira: É engraçado
que no primeiro dia passou um amigo que me falou
assim: “Que interessante, não imaginava
encontrar tanta diversidade assim na Marina
da Glória!”. Quer dizer, as pessoas
sabem desta diversidade, mas não se dão
conta do tamanho e da importância disso.
Berço do Samba: Considera o
I Fórum Negro em Cena pioneiro nesta
questão?
Carla
de Oliveira: O Movimento Negro já faz
ações afirmativas há muitos
anos! O negro não é submisso e
nem passivo. Ele reage desde à época
da escravidão. O que estamos fazendo,
e de forma criativa, é ser testemunha
da maravilha que é a produção
cultural do negro. É o que a gente consome
todos os dias, e embora consuma tem gente que
não valoriza o bastante. E, não
estamos inventando nada! Escolhemos a Marina
da Glória, que é um lugar privilegiado,
que realiza eventos de grande porte, tipo Rio
Boat Show, e outros mais fashion, etc, então
o negro também é fashion! E muito
fashion! E as pessoas que estão vindo
aqui estão confirmando isso, não
é discurso, é a idéia do
negro em cena mesmo.
Berço do Samba: Sendo a Marina
da Glória, como disse, um lugar privilegiado,
qual foi a maior dificuldade que a produção
encontrou?
Carla de Oliveira: A maior dificuldade para
captação de recursos foi fazer
as empresas acreditarem e investirem num evento
de primeira linha com a temática do negro.
“Mas porque custa X? Tem que ser menos...”,
infelizmente eu ouvi isso sim, mas não
citarei a empresa, porque isso só nos
estimulou a fazer mais e melhor ainda!
Berço do Samba: Dia 21 de Março
foi instituído pela ONU como o Dia Mundial
de Combate ao Racismo, como a senhora vê
esta questão?
Carla de Oliveira: O I Fórum também
é uma oportunidade de refletir sobre
isso. Temos debates com nomes como Ecio de Salles,
Ivanir dos Santos e Giovanni Harvey, que sabem
tudo sobre a questão, por exemplo. 119
anos após a Lei Áurea é
que veio outra lei a 10639, que obriga - veja
bem ainda somos obrigados! - que obriga o ensino
da cultura africana nas escolas. O desafio hoje
é: e aí o que fazemos com essa
lei? Devemos esperar que os professores sejam
preparados para ensinar sobre a história
real do negro e não aquela oficial, que
mostra um negro exótico, folclórico
e indolente, ou o que só tem o samba.
Enquanto existir esse fosso social que separa
a realidade do negro da realidade do branco,
é salário, educação,
condição social, enfim, será
necessário que se criem datas e situações
para que se discuta esta questão, sim.
E a gente tem esperança que esta distância
diminua, porque analisando o processo histórico
a evolução é muito lenta.
Berço do Samba: A senhora pode
adiantar o que virá no II Fórum
Negro em Cena?
Carla de Oliveira: O teatro. Que não
entrou agora por falta de espaço. Devemos
falar também sobre a feijoada, que tem
uma história maravilhosa. A atriz e artista
plástica Iléia Ferraz tem um espetáculo
maravilhoso que fala sobre isso. Então,
no próximo a intenção é
aumentar os assuntos e acho que a Marina da
Glória vai ficar pequena, hein?!!