O POLIVALENTE MOACYR
LUZ
Se você nunca ouviu falar de Moacyr Luz,
provavelmente já ouviu algumas de suas
músicas nas vozes famosas de Gilberto
Gil (Mico Preto) ou Beth Carvalho (Saudades
da Guanabara). Isto para não falar em
Nana Caymmi, Alcione, Fátima Guedes,
enfim uma infinidade de cantores que se deixaram
fascinar pela música deste carioca da
Tijuca que não sai de Vila Isabel.
Polivalente, Moacyr joga nas onze: produtor,
arranjador, compositor, violonista, cantor,
e fazedor de amigos. E, que amigos! Ouvinte
privilegiado, desde pequeno, ainda adolescente
ouvia extasiado, aos ensaios de Elizeth Cardoso
acompanhada ao violão por Hélio
Delmiro. É que ele, aluno do violonista,
era levado ao apartamento da cantora, e lá
ficava em um canto, quieto, impressionado com
a voz, que a consagrara como a “Divina
Elizeth”, e o violão genial de
Delmiro.
Moacyr Luz recebeu a Canto Carioca e, contou
além desta história, casos excepcionais
vividos por ele e outras feras da música
popular brasileira.
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Canto Carioca – Moacyr, o que
você tem feito atualmente?
Moacyr Luz – Eu estive ultimamente com
Hermínio Bello de Carvalho, eu tenho
feito umas músicas com ele, um grande
compositor e é uma honra muito grande.
Nos últimos meses fizemos 11 músicas,
sabe...E tem mais coisa engatilhada. E o Hermínio
foi uma das primeiras que eu falei sobre o Samba
do Trabalhador. E, neste último encontro,
engraçado, é que a gente falava
da falta de direção. Que as grandes
coisas surgem do espontâneo, do inesperado.
Canto Carioca – E que outros
acontecimentos musicais inesperados você
viveu?
Moacyr Luz – Ah, muitos. Eu estou com
48 anos. Minha vida musical começou muito
cedo. Foi muito intensa. Eu era garoto e fui
morar na casa do Hélio Delmiro, grande
músico brasileiro, e tive a oportunidade
de conviver com coisas inacreditáveis.
Praticamente assisti a gravação
do Vem Quem Tem, do João Nogueira. Discos
do Roberto Ribeiro. Porque o Helinho produziu
estes discos. E nesta época ele se revelou
um grande produtor. Ele fez muito sucesso com
um disco da Clara Nunes, que foi o primeiro
disco de samba de mulher a vender mais de 500
mil cópias, que foi o Claridade.
Canto Carioca – E as rodas de
samba, começaram quando?
Moacyr Luz – Peguei um pouco da noitada
do Opinião. Ainda com Nelson Cavaquinho,
Xangô da Mangueira, no Teatro da Siqueira
Campos. E, era impressionante, porque era a
mesma espontaneidade, parecida com isto aqui
no (Clube) Renascença. E, eu sempre ia
com o Helinho, eu com os meus 16, 17 anos. E
teve uma vez que nós levamos o Djavan,
que estava começando a carreira, mas
já tinha feito Flor de Liz. E, eu ali,
de cambona né (risos), carregando o violão.
Sem maturidade, mas convivendo com isto e consciente.
Canto Carioca – Hoje, como se
dá esta chegada dos jovens talentos?
Moacyr Luz – Hoje o mundo é outro.
A compreensão, a possibilidade de aprender
coisas, é diferente. Pode-se aprender
à distância. Naquela época
você tinha que estar perto. Mesmo com
a tecnologia e com o conhecimento, eu percebo
que o Samba do Trabalhador, a afinidade que
existe com essas referências musicais
é a possibilidade do encontro.
Canto Carioca – E o sucesso do
Samba do Trabalhador?
Moacyr Luz – Ah, quando a situação
ficou insustentável, tivemos que por
ingresso. Houve uma exigência de custo
totalmente diferenciada. É preciso que
as pessoas entendam isto, né? Aqui, quando
começou só tinha o Gilson, quase
dormindo com o cigarro na boca e uma geladeirinha!
(risos). Hoje temos 8 seguranças, 3 senhoras
trabalhando nos banheiros. O Ecad veio logo
descobrir, tem que botar som, tem caixas, cozinha,
enfim é todo um gasto que não
tínhamos antes.
Canto Carioca – A freqüência
dos músicos tornou-se rotineira como
esperado?
Moacyr Luz – Eu já chamei todo
mundo. No primeiro dia veio o Tantinho da Mangueira,
pra tocar pandeiro, com o Darci da Mangueira.
Veio o Marquinho de Osvaldo Cruz, o Luis Carlos
da Vila, meu irmão, meu parceiro. Essa
coisa fez um leque de sons. Por exemplo, o meu
samba é diferente do samba do Pedrinho
da Flor, mas somos amigos do disco, de vida,
de viajar junto e, de até propor parceria
junto, mesmo sendo diferente.
Canto Carioca – O disco do Samba
do Trabalhador traz essa variedade?
Moacyr Luz – Sim, porque a gente queria
era estar junto, né. O Bira da Vila encosta
com o V anderley, que chega na Luzia Dionizio,
que compõe com o Zé Luiz do Império
Serrano, que já é mais a minha
cara ao lado do Luis (Carlos da Vila), que já
fica um pouco longe do Adauto Magalha, que tem
músicas com o Adilson Bispo, e são
nomes que acabaram entrando no disco. E o que
mais me impressiona é a quantidade de
pessoas querendo se mostrar, porque confiaram
neste espaço, entendeu? É diferente
de quando você trabalha numa casa, por
exemplo, a que mais gosto, a Carioca da Gema,
aonde adoro o Tiago e o Lefê, que é
um dos responsáveis pela renovação
do samba da Lapa, junto com a Cristina (Buarque).
Canto Carioca – Como surgiu a
chance de fazer o disco?
Moacyr Luz – Eu tenho um vínculo
com uma gravadora em São Paulo e modestamente
eu realizei coisas significativas nesta gravadora.
Por exemplo, eles tinham um distanciamento total
da cidade do Rio de Janeiro, e eu propus como
provocação fazer três discos
de uma vez! Que foi o primeiro do Guilherme
(de Britto) em São Paulo, o Samba Guardado.
O disco do Casquinha da Portela e o (Jards)
Macalé canta Moreira (da Silva). E, esses
três discos criaram uma confiança
comigo e a gravadora, foi muito bem pra eles,
conseguimos páginas inteiras de jornal,
etc. Fiz agora o disco do Aldir (Blanc), que
era outro sonho que eu tinha, meu parceiro de
20 anos, fiz lá também, nesta
gravadora. Então, quando eu pedi pra
fazer este disco (o Samba do Trabalhador), eu
acho que estava com uma moralzinha, né?
Pô, eu estou realizando tanta coisa, acho
que tenho crédito na casa, né.
E, o disco não teve um custo alto. Conversou-se
com os artistas e músicos que o mais
importante era que se registrasse aquele momento.
Canto Carioca – E o DVD?
Moacyr Luz – Eu te confesso que ainda
não assisti ao DVD, rapaz! Eu mixei todo
o projeto, mas a edição final,
depois de eu ter feito minhas últimas
observações, eu não assisti.
E o DVD é um registro amoroso da gravação
de uma roda de samba. Foi tudo feito aqui e
no mesmo dia. Minha única exigência
foi que se fizesse uma coisa de qualidade.
Canto Carioca – E a repercussão
deste evento?
Moacyr Luz – Ah, repercutiu bem, foi
importante pro Clube Renascença, pras
carreiras isoladas, uns mais outros menos, né.
O meu sonho era fazer um disco duplo: um só
com os garotos e outro com os mais antigos.
Mas aí eu depois usei um conselho do
samba, de respeitar número baixo: então
os que chegaram primeiro têm a preferência.
Quem veio primeiro, confiou primeiro, então
eu tinha esta retribuição a fazer.
Canto Carioca – Como você
vê, de uma maneira geral, a relação
samba/disco?
Moacyr Luz – No samba é interessante
que, como tem pessoas velhas que nunca gravaram
um disco, e tem pessoas novas que já
gravaram demais. Quer dizer, já gravaram
bastante, melhor do que demais, né? (risos).
As oportunidades são muito raras. Todo
mundo diz que o samba tá na moda, mas
não é bem assim não. É
ocasional. Pra ter espaço em rádio
e tv, é muito difícil. Ou você
apela pro insuportavelmente comercial, ou é
muito difícil. É uma peneira.
Canto Carioca – O Rio, a cidade,
é muito presente em suas músicas.
Explique melhor esta relação com
a cidade como fonte de inspiração.
Moacyr Luz – Eu sempre tive uma certa
timidez de falar da minha vida pessoal. Apesar
de que eu tenho uma vida que todo mundo sabe,
dos botequins, de boemia e tal. Mas aquele samba
de amor, eu nunca falei, é engraçado.
Eu tenho hoje, mais de 150 músicas gravadas,
se você tirar ali umas 20 falando de amor,
é muito. Quando comecei a fazer músicas
com o Aldir, especificamente, tanto ele quanto
eu, nosso processo de criação
é muito ligado à conversa. E aí,
não só o Rio, mas as pessoas que
comentamos também viram inspiração.
Canto Carioca – Como assim?
Moacyr Luz – Por exemplo, a gente tem
uma conversa assim: “Pô, rapaz estive
ontem na Mangueira e conheci o Carlos Cachaça,
que pessoa! É um passarinho, uma pessoa
assim, e tal e tal”, e ele diz: “Eu
sei que tu és Salgueiro, mas to com uma
vontade de fazer uma música pro Carlos
Cachaça...”, e eu: “Faz aí
que eu levo no violão”. Pronto!
Fizemos uma música que até a Velha
Guarda da Mangueira depois gravou. A música
O Anjo da Velha Guarda eu fiz em homenagem ao
Zeca Pagodinho, e assim eu tenho Rainha Negra,
que a (Maria) Betânia gravou em homenagem
à Clementina (de Jesus), o Medalha de
São Jorge, pra São Jorge, o Som
de Prata, que é pro Pixinguinha, Enluarada,
que a Fátima Guedes gravou que é
pra Elizeth Cardoso e Saudades da Guanabara,
pro Rio.
Canto Carioca – Não te
preocupa sua música ficar regionalizada,
ou se o resto do país não a compreender?
Moacyr Luz – O Rio é um tambor,
mas as músicas é que trilharam
este caminho. E não me arrependo não!
Meu último disco é de poemas que
falam do Rio e, eu musiquei. Eu conversei muito
com o Nei (Lopes) sobre isso, e aprendi muito
com ele que, por exemplo, São Jorge tem
uma importância aqui, que no Maranhão
na tem. No Maranhão tem Ana Jansen. No
Belém é o Círio de Nazaré
e a gente escuta aqui, e vê num tom folclórico,
lá é como se tivesse falando de
São Jorge como falamos aqui, entende?
O Coração do Agreste que a Fafá
de Belém gravou, foi um sucesso nacional.
Canto Carioca – Considera Coração
do Agreste seu maior sucesso?
Moacyr Luz – Talvez, assim em escala
nacional, pode ser. Mico Preto também
teve uma execução boa. Mas, talvez,
pouca gente saiba que são minhas. Dona
de Mim, com o 14 Bis foi da novela Pedra Sobre
Pedra. Recentemente uma com o Ivan Lins, foi
da novela Porto dos Milagres, que era minha
e dele. Todas elas eu gosto. Mas as que eu meto
a cara, cantando, é mais a cidade mesmo.
Canto Carioca – Como é
o seu processo de criação?
Moacyr Luz – Minha hora de compor é
de manhã. Não sei compor de noite,
não sei nada disso. Hora de compor é
sete da manhã, seis e meia, oito horas...
meio-dia? Já começo é a
querer beber!