|
CONFETES E SERPENTINAS |
 |
|
RÁDIO BERÇO DO SAMBA |
 |
GRUPO BERÇO DO SAMBA
|
 |
 |
|
|
|
Há quanto tempo você
tem se dedicado à música, como cantor
e compositor?
Nei Lopes – Olha, eu tenho uma carreira profissional
iniciada em 1972, já se vão 32 anos. Então,
eu acho que são três décadas dedicadas
à cultura popular brasileira em duas vertentes:
na vertente do compositor, de criador e na vertente
de crítico, pessoa que procura refletir sobre
a realidade da música brasileira. Vou falar sobre
a primeira: refletir sobre a realidade da música
brasileira. A primeira gravação minha
como compositor profissional foi em 1972 e a primeira
reflexão publicada foi em 1981, num livro em
que eu, exatamente, procurava analisar questões
envolvendo basicamente as escolas de samba do Rio de
Janeiro e fazendo até um certo exercício
de futurologia com relação às coisas
que estão acontecendo hoje, isso em 1981. É
uma caminhada.
Berço do Samba – E essas coisas estão
acontecendo?
Nei Lopes – Estão acontecendo, a minha
reflexão primeira foi em cima da questão
das escolas de samba que sofreram uma transformação
muito grande, a partir de meados da década de
70. E as transformações se refletiram,
exatamente, num privilégio do espetáculo
em detrimento do fazer cultural, propriamente dito.
Quero dizer, a questão do mercado, a questão
da indústria sobrepujou a questão da criação
coletiva, no meu modesto julgamento. Isso em termos
de escola de samba, que é uma coisa, o samba
é outra coisa diferente, são duas instituições
que, em certo momento histórico, se cruzam, mas
são duas coisas diferentes e eu procuro enfatizar
a diferença entre uma coisa e outra. Quando a
escola de samba foi criada no Rio de Janeiro, a Instituição
Escola de Samba, na década de 20, o samba já
existia há muitas décadas antes. Muito
antes.
Berço do Samba – Como tem sido pesquisar
a origem do samba?
Nei Lopes – Olha, eu tenho todo um campo de reflexão
sobre a participação do elemento africano
e afro-descendente na cultura brasileira. Então,
evidentemente, que eu teria que passar pelo samba, que
é o segmento mais visível em termos da
musicalidade brasileira, é o segmento mais visível
dessa participação. Então, eu tenho
estudado, ao longo dos anos, a questão do samba,
a questão das escolas de samba. Só que,
em relação às escolas de samba,
como é um fenômeno, no meu entender, já
absolutamente comprometido com a indústria cultural,
já extrapolou os limites da criação
popular, então, eu já abandono um pouco
as minhas reflexões sobre a escola de samba.
Prefiro me centrar hoje no samba enquanto gênero
de música popular brasileira, enquanto matriz
da grande música que se faz nesse país.
Berço do Samba – Essa pesquisa
tem contribuído para o Nei Lopes artista, que
canta, que compõe?
Nei Lopes – Esse trabalho, esse estudo tem me
embasado no sentido de me fortalecer cada vez mais nas
minhas convicções. Eu tenho uma percepção
clara de que existe toda uma estratégia internacional
hoje, da indústria cultural, no sentido de pasteurizar,
no sentido de nivelar, no sentido de desnacionalizar
a música em nível planetário. Criou-se
um padrão musical que interessa ao mercado, esse
padrão é imposto em todos os países,
em todos os quadrantes do planeta Terra. Então,
esse conhecimento, essa consciência me embasa
para procurar fazer um samba, uma música popular
brasileira que seja, cada vez mais, resistente a essa
estratégia, e é isso que eu tenho feito
ao longo dos anos. Quer dizer, há todo um contexto
que é contrário a essa afirmação
da nacionalidade, da música popular brasileira
contra o qual eu me insurjo. E como é que eu
me insurjo? Me insurjo fazendo uma música que
procure ser, cada vez mais brasileira, cada vez mais
peculiar e, cada vez mais múltipla, é
isso que eu procuro fazer.
Berço do Samba – O senhor acredita
que o samba ainda é visto de maneira preconceituosa?
Nei Lopes – Absolutamente, completamente preconceituosa.
O samba é sempre associado, primeiro por suas
origens negras, o samba é sempre associado à
escravidão, associado à pobreza, é
associado à favelização, associado
à criminalidade, e essa é a grande estratégia
que é usada pela indústria cultural globalizante,
no sentido de colocar o samba numa condição
subalterna sempre. E é também uma estratégia
que compõe todo esse complexo de dominação
e de colonização cultural. Uma das estratégias
também é taxar o samba como uma coisa
imóvel, como uma coisa velha, como uma coisa
que não se renova. Eu escrevi um livro, há
uns dois anos, chamado Samba b – a – ba,
o samba que não se aprende na escola. Esse livro
mereceu oito páginas de uma revista elegante,
uma revista finíssima que é editada em
São Paulo, editada, inclusive com muito patrocínio
do Governo. Então, é uma revista muito
bonita, de altíssimo nível, ela tem papel
couchê, custa caríssimo nas bancas... Essa
revista se ocupou do meu livro, num artigo altamente
tendencioso, usou oito páginas para falar do
meu livro, acusando o livro de coisas: que o livro era
passadista, era reacionário. O título
da chamada de capa dessa crítica veja bem, dizia
assim: “Nei Lopes – O samba em formol”.
Eu absolutamente não advogo que o samba tenha
que ficar “museificado” tenha que ficou
imóvel nada disso, eu sou uma das pessoas que
mais propugnam pela visibilidade, pela diversidade,
pela multiplicidade do samba. Agora mesmo, estamos aqui
no estúdio, estou concluindo mais uma produção,
mais um disco meu, um disco em que eu procuro evidenciar
essa diversidade, por exemplo. É um disco de
samba com algumas informações afro-cubanas,
porque eu acho que os universos do samba são
irmãos. São muito semelhantes, são
duas coisas que se cruzam a todo o momento, o que não
acontece, por exemplo, com a música afro norte-americana,
em relação à brasileira. Os negros
americanos não usaram tambor, foram historicamente
despossuídos do tambor pela colonização,
pela evangelização dos protestantes. Enquanto
que os negros da América-hispânica, da
América portuguesa, como, nós, usaram
sempre o tambor. Então, você pega a música
de Cuba, a música de Porto Rico, a música
da República Dominicana, a música do Haiti,
até o próprio Prata, do Uruguai até
a Argentina há uma similitude entre essas músicas,
porque elas têm origens comuns, a origem na grande
civilização Banto, lá do Congo,
Angola e adjacências, o que não ocorre
com a música dos Estados Unidos. Então,
você pega um samba e o associa com a música
afro-hispânico, a música centro-americana,
é absolutamente coerente, não é
colonização, nem coisa nenhuma. Você
está promovendo o encontro entre parentes que
foram, de uma certa forma, dispersos pela escravidão
e etc. e tal. Então, eu procuro no meu trabalho,
sempre que posso, chamar o samba para essas associações
e exatamente por isso. Para mostrar que o samba é
plurifacetado, o samba é um gênero musical
altamente rico, não é velho, porque ele
se renova a cada momento, desde o primeiro samba, registrado
como samba, que foi “Pelo telefone”, a gente
observa que, a cada década, há uma renovação
da expressão dessa pluralidade do samba, que
também está vivo até hoje por causa
disso. E, às vezes, até é meio
difícil perceber essa diversidade, inclusive
em sub-gêneros, que às vezes são
mostrados como gênero, como por exemplo, a Bossa
Nova, é um samba, é uma forma de fazer
samba. O choro como forma instrumental de se tocar o
samba, o chamado sambop, o samba jazz surgido aqui no
Rio de Janeiro no contexto da Bossa Nova, o samba de
piano, baixo e bateria. Aí está um dos
poucos momentos em que a tradição norte-americana
e a tradição brasileira se encontram.
Mas se encontram por via do jazz primeiro, mas o jazz
tocado com um acento de samba e por aí vai. Então,
o samba é essa diversidade, inclusive essas formas
mais modernas, supostamente mais modernas, que emanam
da Bahia com muita sensualidade, com muita, o chamado
samba-axé, ou samba de quebradeira, são
tradições também bastante arcaicas
do Recôncavo Bahiano, das quais indústria
cultural se apropriou. Então, o que eu procuro
fazer sempre, é mostrar essa diversidade, essa
pluralidade e mostrar que o samba está vivo aí,
não está velho e não está
no formol.
Berço do Samba – Por que o senhor
acredita que o conceito de pluralidade cultural ganha
tanta importância no mundo hoje?
Nei Lopes – Eu acho que há uma dualidade
de pensamento aí, eu acho que os intelectuais,
os intelectuais “do bem” (risos), procuram
enfatizar a questão da pluralidade e procuram
valorizar essa questão. Ao passo que outras expressões
intelectuais que não são tão “do
bem” assim, que estão visando muito mais
o capital, são expressão de um capitalismo
bastante perverso, bastante massacrante, já não
valorizam a pluralidade do jeito que a intelectualidade
do bem valoriza. Porque não interessa... O mundo
hoje é comandado por corporações,
cada vez menos corporações. Digamos que
hoje você tem conglomerados, uns quatro ou cinco
conglomerados comandando a cultura no mundo inteiro.
Então, evidente, que quanto mais se concentra
o poder nas mãos desses conglomerados, menos
a pluralidade interessa. Você tem, para dominar
o mercado, você tem que ter um mercado homogêneo.
Então, essa homogeneidade é contra todo
tipo de pluralidade. Eu acho que quem valoriza a pluralidade
somos nós, eu, você (apontando para a equipe
do Berço do Samba), os espectadores aí
que estão assistindo ao nosso programa, mas o
grande, o Big Brother que manda nessa história
toda, eu acho que ele não gosta de pluralidade
não.
Berço do Samba – O senhor acredita
que a música popular brasileira retrata a pluralidade
cultural do país?
Nei Lopes – Olha, existem duas músicas
populares brasileiras, dois escaninhos de música
popular brasileira. Existe a música popular brasileira
que é espontânea, de criação
popular mesmo e essa você vai encontrar onde?
Nas produções independentes, nos centros
mais afastados. E existe outra música imposta
por essa indústria de que nós estamos
falando, cujos porta-vozes são os meios de comunicação
atrelados a essa indústria. A gente teve, dias
atrás, a entrega de um prêmio, que é
supostamente o prêmio mais importante da música
popular brasileira, em que não houve nenhuma
premiação para o gênero samba, houve
para o hip hop, para o universo pop, mas, no entanto,
numa estratégia, aquela coisa do álibi,
numa espécie de álibi, o que os organizadores
do prêmio fizeram? Pegaram o Jamelão, o
nosso grande José Bispo Clementino dos Santos,
nosso grande mangueirense, botaram lá e fizeram
um grande final da premiação com Jamelão,
mais a Escola de Samba da mangueira. É sempre
assim! Efetivamente o samba não tem nada a ver,
não participa do mercado, isso na visão
deles, mas aí como álibi, para não
dizer que são anti-samba, ou antinacionais, o
que fazem? Pegam alguém que representa alguma
coisa do samba e bota num “gran finale”,
num oba-oba e etc e tal. Quer dizer, então o
que a gente vê é isso. Apesar disso tudo,
existe hoje uma produção musical independente
muito forte, no Brasil inteiro. Existe uma rede natural
e espontânea de troca de informações,
a Internet inclusive veio facilitar muito isso. Os artistas
do samba estão trabalhando e muito bem, eu inclusive,
em todo país, sempre sendo prestigiado, sempre
sendo chamados, independente de qualquer coisa, Evidentemente
que ninguém do samba, pelo menos o que eu conheça,
à exceção de uns dois ou três,
que merecidamente está lá no pódio,
à exceção de um ou dois que a indústria
cultural admitiu. Nenhum sambista está andando
de BMW, tendo jatinhos, etc e tal... Mas, pelo menos,
os que estão trabalhando estão conseguindo,
como trabalhadores, ter uma remuneração
condizente dentro dos padrões nacionais. Isso
é importante, nós somos trabalhadores
da música, não somos? Ninguém nasceu
para ser “superstar”, ser “popstar”.
Então, a gente tendo a remuneração
condigna, tendo a possibilidade de cuidar direitinho
da saúde, tendo a possibilidade de aos 62 anos
ter essa aparência bonita, modéstia à
parte, então tudo bem está tudo certo,
está tudo legal.
|
|
|
|
|
|
|
|
| DIVULGAÇÃO DE EVENTOS |
CADASTRO
|
| Cadastre-se para receber nossas atualizações:
|
|