Fui
convidado para um churrasco no famoso sítio
do Zeca em Magé. Levei meu gravador, na
expectativa de conseguir uma entrevista com “o
cara”. Depois de muito tempo sem coragem,
resolvi falar sobre a idéia do site, e
a possibilidade de entrevistá-lo. Fiquei
surpreso quando ele pegou a cadeira e permitiu
que eu lhe fizesse as perguntas.
Zeca Pagodinho dispensa apresentações,
então...
Berço
do Samba - Por que a carreira como jogador
de futebol no Botafogo não deu certo?
Zeca
Pagodinho - Nunca fui ligado em futebol. Meu negócio
desde criança sempre foi música.
Como toda criança de subúrbio, também
tive minha turma, tanto em Irajá quanto
em Del Castilho. Esses amigos iam ao treino do
Botafogo (que treinava suas divisões de
base num campo próximo a Del Castilho)
e insistiram para que eu fosse junto. Daí
os rápidos treinos no Botafogo que foram
substituídos pelas rodas de samba, que
eram, na verdade meu maior divertimento.
BS
- Como foi seu início de carreira?
ZP
- No início dos anos 80, a gente se reunia
todas as quartas-feiras na quadra do Bloco Carnavalesco
Cacique de Ramos para cantar sambas. Era um pagode
da melhor qualidade. Lá se reuniam vários
bambas. Nada mais nada menos que Almir Guineto,
Jorge Aragão, Bira, Ubirani, Sereno, Arlindo
Cruz, Luis Carlos da Vila, Baiano do Cacique,
e muitos outros. A intenção era
cantar os sambas novos que cada um fazia. Tinha
muito partido alto, a gente improvisava e se divertia
muito. Um dia a Beth Carvalho, que já era
uma cantora de sucesso, apareceu lá e ficou
apaixonada por aquele movimento. Em seu disco
seguinte ela resolveu gravar "Camarão
que dorme a onda leva", música minha,
do Arlindo e do Beto sem Braço. E também
me convidou para cantar com ela no disco. Depois
disso, foi lançado um disco chamado Raça
Brasileira que reunia o Mauro Diniz, a Jovelina
Pérola Negra, a Elaine Machado, o Pedrinho
da Flor e eu. Cada um cantava quatro músicas,
é o que se chamava de pau-de-sebo. O disco
repercutiu bem e a RGE decidiu gravar um disco
solo meu. Foi um grande sucesso. Vendeu muito
e estourou no Brasil inteiro. Naquele disco tinha
Iaiá, SPC,... Assim começou tudo.
BS
- Porque o apelido "Pagodinho"?
ZP
- Lá em Irajá (subúrbio do
Rio) onde eu fui criado tinha um grande bloco
carnavalesco chamado "Boêmios de Irajá".
Lá também se reuniam grandes sambistas.
Eu sempre saía no bloco, era o mascote
de uma ala chamada "Ala do Pagodinho".
Daí fiquei conhecido como o Zeca da ala
do Pagodinho. Para Zeca Pagodinho foi só
um pulo.
BS
- Como você vê o samba atualmente?
ZP
- Vejo muito bem. O pessoal costuma dizer que
o samba estava mal e que agora ressurgiu. Não
é verdade. O samba está sempre bem.
O que acontece é que agora a mídia
dá mais espaço, fala mais. Mas nós
sempre estivemos compondo e trabalhando. Surgiu
uma rapaziada nova fazendo um som que se chama
de novo pagode. Eles são um pouco criticados,
mas na verdade eles estão também
na mesma batalha. É melhor do que se ouvir
música estrangeira o tempo todo. E tem
mais, se a criançada gosta, então
tá tudo bem.
BS
- Porque essa ligação tão
forte com as crianças?
ZP
- As crianças são o futuro do Brasil.
Eu sempre gostei muito de criança. Elas
são ingênuas e sinceras. Se não
gostam dizem na cara. Acho que nenhuma criança
deveria sofrer todas deveriam ter o direito de
estudar. Espero que algum dia o Brasil trate melhor
nossas crianças.
BS
- O que você faz quando não
está trabalhando?
ZP
- Eu gosto muito de ficar em casa, com minha mulher,
meus filhos, meus amigos e meus bichos. Há
uns dez anos me mudei para Xerém (distrito
de Duque de Caxias, baixada fluminense) que é
um lugar maravilhoso, cheio de verde, de rios,
cachoeiras. Lá eu passo meu tempo. Tento
criar meus filhos para viver sem as paranóias
da cidade. Lá eles andam de pé no
chão, tomam banho de rio, tem contato com
os animais e com as plantas. Uma vida tranqüila.
Por isso, quando acabam meus compromissos profissionais
volto correndo pra Xerém.