REPÚBLICA DO SAMBA

Mauro Vianna
Djalminha, filho de São Cipriano

Alguém,aí,sabe qual é o Dia de São Cipriano? É isso, mesmo. Qual é o dia em que se comemora o Dia de São Cipriano?
 
 Calma. Não se trata de “game” ou “quizz”. A pergunta me veio à mente, em conseqüência, da deliciosa conversa que tive com o grande compositor do  Morro da Providência cujo Cd “A ÚLTIMA CEIA” é uma peça rara da verdadeira cultura brasileira.
            
   - Meu nome é Djalma Souza da Silva. Tenho 75 anos. Nasci no Morro da Providência. Sabe quando? Dia 11 de julho. “Dia de São Cipriano”.
   
   - Mas você freqüentava os Terreiros de Candomblé da Zona Portuária, Djalminha?
  
   - Não, rapaz! Isso aí era coisa pesada. A polícia baixava o pau, malandro.
   
   Djalminha faz um corte rápido e coloca em primeiro plano sua habilidade como percussionista.
   
  

- No meu tempo, no Morro da Providência nossa única diversão era o samba. A criançada aprendia a tocar os instrumentos batendo na lata. Sabe aquela velha história da “Lata D’água na Cabeça?”. Se liga: a  lata serve  para carregar água morro acima, vira tamborim, surdo e o
 que a imaginação quiser:


FOI BATENDO NUMA LATA
QUE ME TORNEI UM BAMBA,
PARTIDEIRO RESPEITADO
NAS RODAS DE SAMBA.
SE QUISER VER PRA CRER
QUE VOU DEIXAR CAIR
SE ENCULCA NO PAGODE
E VAI BEM FUNDO PRA SENTIR

QUE SOU RAIZ DE VERDADE
DA VIZINHA FALADEIRA
EU FIQUEI-FIRME
DA RISOLETA, NEGA BELA:
LÁ NO MORRO DA FAVELA
DO BAM-BAM-BAM 7 COROAS
ADEUS PNTE DOS AMORES
DA CABROCHA DA GAMBOA

Cabrocha da Gambôa (Djalminha/Luiz Luz)


Djalminha, essa Risoleta era do cu riscado, não era?
   
   - Risoleta? Era a cabrocha do Morro da Favela. Encantadora e alucinante!  Risoleta acredito eu, ter sido a primeira mulher citada em um samba. Escuta só:
   
VOU MANDAR ESTA NEGA RISOLETA
QUE FEZ UM FALSETE E ME DESACATOU
ISSO É CONVERSA PARA DOUTOR
   
   Antes da pergunta, Djalminha sai respondendo:
 
   - Conheço esta samba desde de criança. Agora, por favor, não me pergunte o nome do compositor. Vou ficar  te devendo essa... Não vou fazer, melhor. Vou pagar você  respondendo uma pergunta que você ainda não fez: o nome  dos meus pais e da minha avó, grande passista do morro da  Favela, da qual, herdei a ginga e a sabedoria.
   
   Meu pai chama-se Antônio Januário da Silva. Mamãe era a Dona Maria da Conceição de Souza e Vovó sempre foi  Vovó. Sobre papai tem uma historinha muita curiosa: Você sabia que o cara foi preso, em 1936 porque ensinava  pessoas a ler? Anote, aí: 1936: um chefe da família é
 preso por alfabetizar os pretos do Morro da Favela!    
   Felizmente, na minha juventude, ensinar os pretos a ler e escrever não era considerado crime hediondo! O Djalminha  rapazola era exímio dançarino, aposto! Cumpadi, muito antes de me casar com a Vizinha Faladeira  (que começou na Rua América 184, em Santo Cristo) dos empregados da beira do cais, rodei e rodopiei por todas as gafieiras da cidade. Se quiser anotar, anote:
   
   1)      RECREIO DA FLORES, na Praça da Harmonia. O
 Recreio das Flores era um rancho que virou gafieira. Nessa
 época conheci os lendários ZÉ MOLEQUE e WALTER MANTEIGA
 JR do Morro do Pinto.
   2)      DRAMÁTICO. Era um clube de futebol também no
 Morro do  Pinto.
   3)      CLUBE DOS ESTADOS. Esse ficava na Rua Álvaro
 Alvim.
   4)      CLUBE DOS CRONISTAS CARNAVALESCOS bem, ali, na
 Presidente Vargas com Uruguaiana.
   
   Djalminha recua no tempo e reconstitui Escolas de Samba pouco conhecidas: Nos anos 30, o Morro da Providência abrigava as Fiquei Firme ou Fique Firme, Corações Unidos e Última Hora.
   
         
   Por que a fama da Vizinha Faladeira?
   
   O destaque da Vizinha Faladeira credita-se aos empregados  do cais. O povo da estiva (primeiro sindicato do Brasil)  sempre foi forte e unido. Ta o Império Serrano que me  deixa mentir. E por falar nisso, Fuleiro, Ivone Lara e sambistas de todas as Escolas batiam ponto na Vizinha Faladeira. Eu vi. Ninguém me contou.
   
   
Amei há quem não devia amar 
Chorei por quem não devia
chorar
Eu já jurei que mais ninguém
Eu hei de ter amor
Quem eu julguei
Me ter amizade
Me abandonou
A princípio eu fiquei triste
Quase morri de saudade
Agora estou conformado
Antes viver só, que mal acompanhado

( Desfile do “Bloco” Vizinha Faladeira, nos anos 40)
   
   
   E a Pedra do Sal, Djalminha? Você sabia que a Pedra do Sal ganhou status de Quilombo Urbano?
   
   No meu entender, a Pedra do Sal é um santuário. Santuário tão sagrado quanto a Pedra do Sol, no México.
   

EH! SENZALA, SENZALA, EH!
EH!, SENZALA
EH!, EH! SENZALA, SENZALA EH!
EH! SENZALA

EU SOU O SAMBA
SOU ORIUNDO DA SENZALA
NASCI NUM LAMENTO DE DOR
SÃO VELHAS-GUARDAS
E BAIANAS
TESTEMUNHAS DO QUE EU PASSEI;
JÁ FUI MARGINALIZADO
E PELOS MORROS E FAVELAS
ME CRIEI – ZÉ PEREIRA  ME FEZ UM REI
PORQUE  UM BAMBA, É BAMBA
E PRA PEDRA DO SAL COM MUAMBA
DESCI DO MORRO, PRA FICAR
BEM ALTO
VIREI FEITIÇO QUE A CARMEN MIRANDA
ESPALHOU NO ASFALTO

HOJE NESTA FESTA DE SENZALA
PAGODIANDO VOU O DIA AMANHECER
MORO NO MORRO, É BOM SACAR
MINHA COROA É DE CETIM
MEU PAVILHÃO, MEU ESTANDARTE
CULTURA E ARTE MOSTRO
AO SOM DO TAMBORIM
NUM SAMBA DE RODA
NA CIDADE ALTA  E COM TIA CIATA DESFILANDO
AS ESCOLAS DE SAMBA NA APOTEOSE
REINANDO NAS LINHAS DA PAUTA
DA PRAÇA ONZE, EU SOU A IMAGEM
QUE O MUNDO EXALTA

(Pedra do Sal – Djalminha, Bebeto do Ouro e Sarabanda)

   
   
   
   
 

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