Chico Buarque foi “fazer
um samba em homenagem à nata da malandragem,
que conheço de outros carnavais.” Foi
à Lapa e perdeu a viagem, “que aquela
tal malandragem não existe mais.”
O Bloco Berço do Samba resolveu procurar
os malandros perdidos no passado do samba, eternizados
nas canções e nas memórias
dos mais antigos.
Voltamos à uma Lapa cheirosa, lindos cabarés,
com cantoras de tango argentino e malandros de camisas
de seda japonesa. Mulheres de soirée... Tudo
é alegria, perfume, boêmia.
“O Chefe da polícia/ Pelo telefone
manda me avisar/ Que na carioca tem uma roleta para
se jogar.” ( Donga e Mauro de Almeida - Pelo
telefone )
A Rua do Ouvidor, no centro do Rio de Janeiro, é
a Paris na década de 20. Onde se misturavam
a fina estampa e a malandragem, bem trajada pelos
cortes impecáveis dos melhores alfaiates.
Eram os malandros dos bares e cafés. Diferente
dos malandros seresteiros do morro. Os que freqüentavam
as zonas tórridas de paixões avassaladoras.
Sapato brilhando, chapéu panamá, sorriso
faceiro, dosagem alcoólica controlada no
nível da simpatia, um olho na acompanhante,
outro nas acompanhadas, os dois nas cabrochas do
recinto. Andar solto, cheio de ginga, papo despretensioso
e mortal. Fiel à boemia; à monogamia,
jamais. Trabalho, nem pensar. Taí o retrato
falado do malandro imortalizado na nossa história.
Eis a figura essencial da história do samba.
A relação com a indumentária
e o samba era tanta, que Cartola e Paulo da Portela
fizeram o jingle: “Vestir bem gastando pouco/
Eis o problema louco/ Que nós temos a resolver/
Prestem atenção/ Estamos autorizados
a dizer/ Pagando só o feitio/ Eis o plano
inteligente/ De uma casa aqui do Rio/ Não
pode haver/ Maior felicidade/ Só na Alfaiataria
‘A Cidade’”
E ai de quem não pudesse gastar para alinhar-se,
como disse João da Baiana em Cabide de Molambo:
“Meu Deus eu ando/ Com o sapato furado/ Tenho
a mania de andar engravatado/ (...) Minha camisa
foi encontrada na praia/ A gravata foi achada/ Na
Ilha da Sapucaia/ Meu terno branco/ Parece casca
de alho/ Foi a deixa de um cadáver/ Do acidente
do trabalho.”
Nos idos dos anos 30, o malandro era o sambista
que vivia de pequenos biscates, da venda dos seus
sambas, da mordomia de suas mulheres preferidas.
Era o malandro seresteiro do morro.
"Meu chapéu de lado/ Tamanco arrastando/
Lenço no pescoço/ Navalha no bolso/
Eu passo gingando/ Provoco desafio/ Eu tenho orgulho
de ser vadio.” ( Wilson Batista - Lenço
no pescoço )
O reduto dessa malandragem era o Bar Apolo, no Estácio,
aos pés do Morro de São Carlos. Mas
os grandes malandros eram Francisco Alves e Mario
Reis, que compravam os sambas e gravavam nas rádios,
fazendo grande sucesso.
“Se você jurar que me tem amor/ Eu posso
me regenerar/ Mas se é para fingir, mulher/A
orgia assim não vou deixar.” (Se Você
Jurar-Ismael Silva, Nílton Bastos e Francisco
Alves)
“Se eu precisar algum dia de ir por batente/
Não sei o que será/ Pois vivo na malandragem/
E vida melhor não há.” (Ismael
Silva e Nilton Bastos - O que será de mim)
A estética do malandro foi deixada de lado.
Trocada por golpes, jogatinas, capoeira, fazendo
surgir o malandro bamba e vadio.
E assim surgem os lendários Zé Pretinho,
Camisa Preta, Meia Noite, Sete Coroas, Nelson Naval,
Madame Satã...
O mulato é de fato/ E sabe fazer frente a
qualquer valente/ Mas não quer saber de fita
nem com mulher bonita.” (Mulato Bamba –
Noel Rosa)
Os homens que defendiam suas honras na base da Solingen
e das pernadas certeiras dos golpes de capoeira.
Os arruaceiros que disputavam o respeito em seu
território, e eram até ameaçadores
para os policiais, ditaram o novo tipo de malandro
regente na Lapa. As brigas entre os Nagoas e Guaiamuns
eram constantes. E o malandro perdeu o charme e
o respeito.
O tempo passou e o malandro voltou ao alto do morro.
Trocou a navalha pelo fuzil e se achou o dono do
mundo. E fez muitas mães chorarem. Era o
fim da malandragem romântica.
“Chegou alguém apressado/ Naquele samba
animado/ Que cantando dizia assim/ No século
do progresso/ O revólver teve ingresso/ Pra
acabar com a valentia” (Século do Progresso
- Noel Rosa)
“Aaaah, meu bom juiz/ Não bata este
martelo nem dê a sentença/ Antes de
ouvir o que o meu samba diz/ Pois este homem não
é tão ruim quanto o senhor pensa.”
( Bezerra da Silva – Meu bom juiz)
Com o tempo, o malandro foi desistindo da “profissão”.
“A malandragem eu vou deixar/ Eu não
quero saber da orgia/ Mulher do meu bem querer/
Esta vida não tem mais valia (A malandragem
- Bide)”
“Quem trabalha é quem tem razão/
Eu digo e não tenho medo de errar/ O Bonde
São Januário/ Leva mais um operário/
Sou eu que vou trabalhar” (O Bonde São
Januário- Wilson Batista - Ataulfo Alves)
“Entre deusas e bofetões/
Entre dados e coronéis/ Entre parangolés
e patrões/ O malandro anda assim de viés”.
(Chico Buarque - A volta do Malandro )
O malandro do Jorge Aragão que matava a Rosinha
de dor, O malandro que vira otário quando
ama, os malandros maneiros do jogo de bicho do Nei
Lopes, o malandro Kid Morengueira e o malandro –
esperto de Noel Rosa: “Seu garçom me
empresta algum dinheiro/ Que eu deixei o meu com
o bicheiro/ Vá dizer ao seu gerente/ Que
pendure esta despesa/ No cabide ali em frente.”
(Conversa de botequim - Noel Rosa)
Hoje em dia, os saudosistas desejam relembrar uma
época de ouro, ostentando um falso chapéu
Panamá e entoando as canções
populares que criaram o mito.
E o Berço do Samba, com a medalha de São
Jorge no peito e a imagem de Zé Pelintra,
dá o recado: Se segura, malandro!
SINOPSE DO ENREDO
“Malandro é malandro,
mané é mané"
E o cara sabe que é malandro quando pode
entrar e sair de qualquer lugar.
Dou o meu recado como quem sai de uma briga,
Não sou de intriga, levo tudo no papo,
Não dou supapo, pois sou malandro. “Faço
samba e amor até mais tarde e tenho muito
sono de manhã”.
Pois quem é da orgia sabe do que estou falando.
Acendo a vela pro santo e vou pro terreiro saravar.
Salve a malandragem!!!
Sou malandro da literatura, sou Vadinho, Brilhantina,
Pedro Mico, sou Zé Carioca, Alladin, Macunaíma.
Sou Zé Pelintra, Camisa Listrada, Sou Meia
Noite, Sou Navalhada.
Transo de tudo, não trago nada.
Sou do samba, sou do tango, do maxixe e da gafieira.
Do jogo de bicho, ronda, roleta e bacará.
Sou cerveja, sou cachaça e tudo o que puder
traçar.
Sou da Penha, sou da Lapa, sou do Mangue e do Estácio
de Sá
Pra ser malandro, tem que ter linha
Um terno branco, uma bengala e uma moreninha
Sou São Jorge, Sou Ogum,
Meu caminho é aberto, meu corpo é
fechado
Na linha de frente, Saravá!
Sou capoeira, dou rasteira, na ponta dos dedos,
estrago um.
Sou aquele que brinca com a vida,
Na corda bamba do meu coração
Não sou rico, nem sou pobre
Mas tenho o porte de gente nobre
Não sou plebeu e nem sou rei
“Sou alma de rua, falei?”
Autor:Serginho Corrêa
Dados Bibliográficos:
Navalha não corta seda: Estética e
performance no Vestuário do Malandro - Gilmar
Rocha
Gente do Samba: malandragem e identidade nacional
no final da Primeira República - Tiago de
Melo Gomes
Macunaíma - herói sem nenhum caráter
- Mario de Andrade (1928)
Zé Carioca, de Walt Disney
Dona Flor e Seus Dois Maridos - Jorge Amado (1976)
Uma lição de Malandragem - filme de
Ipojuca Pontes (1985)
O pagador de Promessas (1987) e o Rei de Ramos (1979)